Luxação da Patela

Definição: Luxação da patela é o deslocamento completo da patela (rótula) para fora do sulco troclear do fêmur — quase sempre para o lado externo (lateral) — causando dor intensa, deformidade visível e incapacidade imediata de movimentar o joelho. É diferente da subluxação, onde o deslocamento é parcial e a patela retorna espontaneamente ao sulco.

Detalhes: A incidência é de 5–77 por 100.000 pessoas ao ano, com pico entre 10 e 25 anos. É mais comum em mulheres (proporção de 2:1) e em adolescentes durante o estirão de crescimento. A primeira luxação geralmente é traumática — torção do joelho, impacto lateral direto ou mudança brusca de direção com o pé fixo. Fatores anatômicos predisponentes aumentam significativamente o risco: tróclea femoral rasa (sulco pouco profundo — displasia troclear), patela alta (patela alta), joelho valgo, ângulo Q elevado, frouxidão ligamentar generalizada e fraqueza do VMO. Após a primeira luxação, o risco de recorrência é de 15–45% — sobe para 50–70% em pacientes com fatores anatômicos predisponentes não corrigidos. Cada episódio causa danos progressivos ao ligamento patelofemoral medial (principal estabilizador ativo da patela) e à cartilagem articular.

O que acontece no momento da luxação: A patela desloca-se abruptamente para fora do sulco troclear. O ligamento patelofemoral medial (LPFM) — estrutura que ancora a patela medialmente — rompe-se em 90–95% dos primeiros episódios de luxação. Pode ocorrer fratura osteocondral (fragmento de cartilagem com osso se solta da patela ou do côndilo femoral — presente em 20–40% dos casos, detectável apenas por ressonância ou artroscopia). Hemartrose (sangramento intra-articular) é quase universal na primeira luxação.

Sintomas: Durante a luxação: dor súbita e intensa na face medial do joelho (onde o LPFM rompe), deformidade visível com patela deslocada para fora, joelho "travado" em semiflexão, incapacidade de estender ou flexionar, inchaço rápido por hemartrose. Após a redução (patela volta ao lugar — pode ser espontânea ao estender o joelho ou requerer manobra médica): dor difusa, inchaço persistente, sensibilidade intensa na borda medial da patela, instabilidade e medo de novos episódios, possível crepitação se fragmento osteocondral solto, limitação de movimento por dor.

Diagnóstico: Raio-X imediato após redução (descarta fraturas e avalia posição patelar), ressonância magnética (avalia extensão da lesão do LPFM, presença de fragmento osteocondral, displasia troclear e outros fatores anatômicos — fundamental para planejar tratamento). Tomografia computadorizada para avaliar rotação tibial e altura patelar em casos de luxação recorrente.

Tratamento: Primeira luxação sem fragmento osteocondral: conservador na maioria dos casos — imobilização com joelheira por 1–3 semanas, seguida de fisioterapia intensiva focada em fortalecimento do VMO e estabilizadores do quadril por 3–6 meses. Cirurgia considerada se: fragmento osteocondral grande (necessita fixação ou remoção), displasia troclear grave, falha do tratamento conservador. Luxações recorrentes (2 ou mais episódios): indicação cirúrgica mais forte — reconstrução do LPFM (padrão-ouro atual), aprofundamento da tróclea (trocleoplastia), realinhamento distal (osteotomia tibial) conforme fatores anatômicos identificados.

Relação com joelheiras: Na fase aguda pós-luxação, a joelheira imobilizadora ou articulada travada em extensão parcial por 1–3 semanas permite cicatrização do LPFM rompido e controle da hemartrose. Durante a reabilitação (semanas 3–12), joelheira articulada com estabilização lateral reforçada protege a patela durante os exercícios de fortalecimento do VMO. Para prevenção de recorrência em esportes, joelheira com anel patelar e estabilização lateral reduz a incidência de novos episódios em 40–60% durante atividades de risco. Joelheira não substitui cirurgia em casos de luxação recorrente com fatores anatômicos significativos — é complemento ao tratamento, não solução definitiva.

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